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sábado, 28 de julho de 2012

Estudo britânico questiona por que somos bípedes

Dois cientistas britânicos usaram um punhado de equações para colocar em xeque uma das hipóteses mais aceitas para explicar por que, afinal de contas, os ancestrais da humanidade adotaram a locomoção bípede [geralmente, tudo o que eles dispõem é de especulações e equações]. Para eles, alguns cálculos simples indicam que é bobagem a ideia de que a postura ereta foi uma forma de evitar o superaquecimento do corpo debaixo do sol africano [ah, não! Cai por terra mais uma crença que me incutiram desde a infância...]. Essa estratégia evolutiva só funcionaria se, antes disso, os primeiros hominídeos (os ancestrais do ser humano) virassem macacos sem pelo [e por que viraram? Qual a vantagem disso?], coisa que provavelmente só aconteceu depois do surgimento do andar bípede. Graeme Ruxton, da Universidade de Glasgow, e David Wilkinson, da Universidade John Moores em Liverpool, publicaram suas conclusões em edição recente da revista científica americana PNAS.

Para os especialistas em evolução humana, andar com dois pés (em vez de usar quatro patas, como os outros primatas) é o que define a linhagem dos hominídeos. É um dos poucos consensos numa área de pesquisa polêmica, na qual ninguém se entende sobre quase nada. Fora o fato do bipedalismo, porém, todo o resto ainda está no ar. Os fósseis mais antigos com indícios dessa característica chegam perto dos 7 milhões de anos [segundo a cronologia evolucionista], mas há quem questione as credenciais bípedes dos bichos. A característica só aparece de forma mais confiável há 4,5 milhões de anos [idem].

E, quando se chega às causas do fenômeno, a coisa fica muito perto de virar um vale-tudo [quando se buscam as causas da evolução, geralmente é isto o que acontece: vale-tudo]. Sem muitas evidências diretas nas mãos, os bioantropólogos acabaram atirando para todos os lados (veja infográfico abaixo). [Biólogos evolucionistas também têm suas metralhadoras giratórias.]

Até uma suposta fase aquática da evolução humana chegou a ser invocada, já que seria mais fácil ficar dentro d’água e atravessar rios e lagoas com a postura bípede.

Nem todas as hipóteses são malucas assim. Uma ideia simples e elegante [elegante não é sinônimo de verdadeira] é levar em conta o equilíbrio de calor ligado às diferentes posturas no ambiente em que a postura bípede teria evoluído - para muitos, áreas abertas da África tropical. O raciocínio é que, dependendo da posição do corpo, a luz solar esquenta o sujeito de maneiras diferentes. Por esse critério, ficar em pé debaixo de sol quando se é bípede dá menos calor do que fazer a mesma coisa sendo quadrúpede.

O problema é que esse cálculo tinha sido feito de forma estática, com o hominídeo teórico paradão. Os britânicos Ruxton e Wilson refinaram as equações originais, adicionando movimento a elas. [Ou seja, partem do pressuposto de que essa evolução se processou, desenvolvem equações baseadas nessa pressuposição e assumem os resultados como “fato”. Ciência experimental é isso?]

E aí a coisa muda de figura, afirmam os autores. Em movimento e debaixo de sol, um hominídeo peludo como os chimpanzés atuais, mas bípede, conseguiria caminhar, no máximo, entre 10 e 20 minutos antes de superaquecer e ter um caso sério de insolação. Por outro lado, um hominídeo com pelos corporais esparsos e glândulas sudoríparas abundantes, como seus descendentes hoje, teria possibilidades bem maiores de dissipar calor e se dar bem com a postura ereta.

É por isso que eles concluem que o caminhar com duas pernas em ambiente aberto exigiria o corpo relativamente pelado como pré-requisito. Do contrário, não teria sido favorecido pela seleção natural.

A questão, claro, é saber qual dessas características evoluiu primeiro. De novo, as evidências são limitadas. A pista mais direta é meio constrangedora: os piolhos que afetam os pelos pubianos humanos. A linhagem deles existe há 3 milhões de anos [outra suposição que pode dar fôlego àquela suposição...].

Como os outros grandes macacos não possuem pelos pubianos, imagina-se [tudo, na verdade, se trata de imaginação] que foi nessa época que os hominídeos perderam seus outros pelos e ganharam esses. Seja como for, parece ter sido depois da invenção [!] evolutiva do bipedalismo.

Resumo da ópera: o jeito de andar característico da humanidade ainda é um mistério evolutivo [sem contar os outros inúmeros mistérios – tidos como verdade. – MB].

(Folha.com)

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quinta-feira, 26 de julho de 2012

Mais um fóssil de ancestral comum = imaginação fértil

[Meus comentários seguem entre colchetes.] Pesquisadores da Universidade de Michigan, Estados Unidos, descobriram o crânio de um animal de 29 milhões de anos [segundo a cronologia evolucionista] que pode ser o ancestral comum de macacos da família Cercopithecidae, conhecidos como macacos do Velho Mundo, e hominídeos, incluindo humanos. O crânio da espécie que era desconhecida tem algumas características que são comuns entre macacos do Velho Mundo, hominídeos e humanos [note, pela foto, que tudo o que os pesquisadores têm é um fragmento de crânio]. A descoberta, feita na Arábia Saudita e relatada na revista especializada Nature, indica que hominídeos e macacos do Velho Mundo se diferenciaram milhões de anos depois do que se pensava anteriormente [note a sutileza do texto: inicialmente dizem que o fóssil "pode ser", depois afirmam que ele "indica". Tipo comum de manipulação].

O pesquisador que liderou o estudo, William Sanders, afirmou que a descoberta do crânio do animal, batizado de Saadanius hijazensis, foi "extraordinária". "O Saadanius é mais próximo do grupo que levou aos humanos", disse Sanders. "Se soubéssemos algo sobre o período e a condição em que este animal viveu, poderíamos descobrir o que causou as mudanças que levaram à (evolução) de hominídeos e homens", acrescentou. Para o pesquisador, o Saadanius pode até ter sido o ancestral comum que liga os humanos aos macacos do Velho Mundo. "Pode ter existido um conjunto de criaturas muito parecidas e uma delas se transformou em nosso ancestral", disse. "Precisamos sair a campo e conseguir mais dados antes de fazer mais afirmações." [Só que já estão fazendo afirmações.]

Os restos fossilizados indicam que o primata parecia muito com um macaco moderno do Novo Mundo, como o macaco-prego. Mas, provavelmente, ele era um pouco maior, cerca do tamanho de um gibão. O animal teria usado os quatro membros para correr em volta das árvores. De acordo com os cientistas, durante o descanso, a criatura provavelmente ficava nas árvores ao invés de se sentar no chão. [Gostaria de saber como deduzem tanta coisa com base num fragmento de crânio apenas...]

A descoberta sugere que a diferenciação entre hominídeos e macacos do Velho Mundo ocorreu muito mais tarde do que os estudos genéticos sugeriam. Estas pesquisas indicavam que a diferenciação teria ocorrido entre 30 milhões e 35 milhões de anos atrás. A nova data, 29 milhões de anos atrás, se aproxima mais do que os pesquisadores esperam e não surpreende do ponto de vista paleontológico [a busca dos evolucionistas é sempre pelo que eles esperam e não pelo fato em si, e o fato parece ser o seguinte: o fóssil é de um macaco que querem que seja o de um ancestral -

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Mais semelhanças entre homens modernos e neandertais

Os cérebros do homem de Neandertal e do homem moderno, similares no nascimento, divergem em seu desenvolvimento a partir do primeiro ano de vida, segundo um estudo conduzido na Alemanha e publicado nesta segunda-feira nos Estados Unidos. Os cérebros dos recém-nascidos humanos e do homem de Neandertal têm quase o mesmo tamanho e parecem idênticos, segundo essa pesquisa publicada na revista americana Current Biology. Mas é após o nascimento, e sobretudo durante o primeiro ano de vida, que o cérebro do homem de Neandertal, extinto há cerca de 28 mil anos [segundo a cronologia evolucionista] por razões desconhecidas, e o do Homo sapiens se diferenciam. A descoberta é baseada em comparações de impressões virtuais, em diferentes idades de desenvolvimento, de circunvoluções cerebrais e estruturas vizinhas do interior dos crânios fossilizados de homens modernos e de Neandertal, incluindo os de recém-nascidos.

As diferenças observadas cedo no desenvolvimento do cérebro refletem provavelmente mudanças nos circuitos e conexões cerebrais, explica Philipp Gunz, do Instituto Max Planck de Antropologia da Evolução na Alemanha, principal autor do estudo. É, na verdade, a organização interna do cérebro que conta mais para as capacidades cognitivas, acrescenta.

"No homem moderno, as conexões entre as diversas regiões do cérebro são estabelecidas durante o primeiro ano de vida e são importantes para um grau avançado de socialização, emoção e funções de comunicação", expôs o pesquisador em uma entrevista à AFP.

improvável que o homem de Neandertal percebesse o mundo da mesma forma que nós percebemos", acrescentou, destacando, no entanto, que nossos primos de evolução não eram burros.

"Eram caçadores sofisticados, altamente especializados. Por isso, é improvável que os homens de Neandertal fossem totalmente privados de linguagem, apesar de ignorarmos o grau de sofisticação dessa capacidade", acrescentou o pesquisador.

(UOL Notícias)

Nota: Com tantas improbabilidades, admira que haja pessoas que deem crédito a essas especulações. Com base em fósseis, antropólogos parecem conhecer tanto de neurofisiologia quanto os neurologistas que estudam cérebros reais (não virtuais). Quando vão admitir, diante de tantas similaridades, que neandertais eram simplesmente humanos? (Pior que isso, só mesmo a pesquisa que afirma que o neandertal era mais promíscuo que o homem moderno pelo fato de ter o dedo anelar mais longo!)[MB]

terça-feira, 24 de julho de 2012

Ferramenta era usada muito tempo antes do imaginado

Os ancestrais do homem moderno [sic] começaram a utilizar ferramentas de pedra para consumir a carne ou a medula óssea de grandes mamíferos há aproximadamente 3,4 milhões de anos [segundo a cronologia evolucionista], ou seja, 800 mil anos antes do que se acreditava até agora, segundo estudo publicado nesta quarta-feira (11). A famosa australopithecus Lucy, cujos restos foram encontrados na Etiópia em 1974, pode ter utilizado ferramentas de pedra, segundo a equipe internacional de paleontólogos dirigida por Zeresenay Alemseged, da Academia de Ciências da Califórnia. “Agora, quando imaginamos Lucy buscando comida na África do Leste, a vemos com um utensílio de pedra na mão, em busca de carne”, afirma Shannon McPherron, em um comunicado do Instituto de Antrolopogia Evolutiva Max Planck da Alemanha.

Dois ossos fossilizados foram encontrados na Etiópia, um fêmur de um mamífero do tamanho de uma cabra e uma costela de um animal grande como uma vaca, com marcas de golpes, talhos e cortes, indicando a utilização de ferramentas de pedra para extrair a carne ou a medula óssea.

Os fósseis encontrados em Dikika, no nordeste da Etiópia, datam de 3,39 milhões de anos [idem], segundo as análises, antecipando em 800 mil anos um momento-chave da evolução do homem. “Essa descoberta avança consideravelmente o momento a partir do qual nossos ancestrais mudaram completamente as regras do jogo”, declarou Alemseged no comunicado. “A utilização de utensílios modificou enormemente sua interação com a natureza, permitindo a eles comer novos tipos de comida e explorar outros territórios”, explicou, acrescentando que será preciso revisar os conhecimentos sobre a evolução humana.

“Isso quer dizer que os Australopithecus afarensis como Lucy ou a bebê Selam utilizavam utensílios de pedra.” Selam, uma australopithecus morta aos três anos de idade, teria vivido há 3,3 milhões de anos [idem], 200 mil anos antes de Lucy.

Até agora, as provas mais antigas da utilização de utensílios de pedra ou de animais provenientes de Buri ou Gona, na Etiópia, remontavam a 2,5 ou 2,6 milhões de anos [idem], recordam os autores deste estudo, publicado na revista Nature. Mas os pesquisadores ainda não foram capazes de estabelecer se os utensílios eram fabricados. “Um de nossos objetivos é voltar onde encontramos os fósseis e tentar achar os utensílios”, afirmou McPherron.

Os pesquisadores sugerem que só o fato de utilizar tais utensílios mostra que nossos ancestrais competiam com outros carnívoros pela comida, e que isso pode ter iniciado o trabalho em equipe dos humanos.

(G1 Notícias)

Nota: Deixando de lado as tradicionais especulações criativas em torno de achados mínimos, chama atenção o fato de que a “bem estabelecida” história evolutiva humana vive carecendo de revisões e que cada vez recua mais no tempo a engenhosidade humana (assim como a complexidade dos seres vivos). Se as descobertas continuarem nessa direção, logo faltará tempo para a evolução ter se processado.[MB]

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Bispo católico admite unicidade humana

Em meu programa de mestrado em Teologia estou lendo o livro Antropologia Cristã (Ed. Vozes), do bispo franciscano Valfredo Tepe. Na página 226, encontrei esta pérola: “A religião cristã nasceu do tronco de Israel. Ao ser transportada ‘para os gentios’, se inculturou no helenismo, reinante naquela época. A Sabedoria bíblica como que se identificou com o Logos grego. Na época patrística, os padres gregos, responsáveis pela inculturação, usaram os instrumentos da filosofia grega. Conseguiu-se uma perfeita transição? O conceito platônico da alma imortal não corresponde exatamente ao conceito bíblico do ser humano. A dicotomia latente da filosofia grega corpo x alma – exacerbada depois por Descartes – não é afirmada pela Bíblia. O ser humano é antes espírito em corpo. Este ser individual, pessoa humana, morre quando a união entre espírito e corpo se desfaz. Não sobrevive a alma, ‘libertada’ do corpo mortal. O que sobrevive é o amor. Deus é amor. Deus é imortal. Quando Ele ama torna imortal o amado. ‘Tu não podes morrer’ – na boca de Deus não é uma proclamação romântica e irreal. ‘Eu digo e faço’ (Ez 36:36). Quando Ele diz, ao criar um ser humano: ‘Eu te chamei pelo nome, tu és Meu’ (Is 43:1) e ‘Com amor eterno Eu te amei, por isso conservei para ti Meu amor’ (Jr 31:3), nos garante vida eterna. Ele cria um interlocutor para sempre, cria o eu metafísico que dá ao indivíduo humano sua dignidade de pessoa desde o instante de sua concepção.”

Clique aqui para saber mais sobre o estado do ser humano na morte.

PEDIDO: este blog está participando do concurso TopBlog. Se você quiser dar seu voto, é só clicar aqui. Muito obrigado!

domingo, 22 de julho de 2012

O cristianismo é bom para o mundo?

O livro tem apenas 77 páginas, por isso mesmo dá para ler de uma assentada, mas também por isso mesmo nem chega perto de esgotar o assunto que se propõe elucidar: O cristianismo é bom para o mundo? Trata-se do debate entre o jornalista ateu Christopher Hitchens e o teólogo liberal Douglas Wilson. O prefácio de John Goldberg é uma pérola: “A história do cristianismo não é absolutamente imaculada, conforme Christopher Hitchens deixa claro e Douglas Wilson admite, mas o cristianismo pelo menos oferece instrumentos para condenar os que praticam o mal em seu nome. Há muitos ismos ‘seculares’ que não têm condições de alegar o mesmo. Eles precisam – ou preferem – simplesmente redefinir o mal como deslealdade para com a Causa, ao passo que todo mal praticado em prol da Causa é considerado ato de heroísmo. Com toda a certeza, o cristianismo teve seguidores que agiram perversamente em nome de Deus. Mas, pelo menos, ele cultiva uma consciência moral pela qual os homens podem tentar olhar para seus atos com os olhos de um Deus de amor. Diante de algumas alternativas, esse princípio de organização dificilmente parece ser o pior para a humanidade.”

O livro da editora Garimpo é organizado em seis “rounds” e o debate segue educadamente, embora acabe, em minha opinião, sem um vencedor evidente. Hitchens começa por questionar a ideia de liberdade e livre-arbítrio pelo fato de Deus ser uma espécie de “big brother” atento a cada deslize humano (p. 12, 13). E cita Fulke Greville, para quem “fomos criados doentes”, embora nos ordenem que sejamos saudáveis. Assim, Hitchens começa a pintar seu quadro de um deus exigente, vigilante e responsável pelo mal – embora requeira de nós o bem.

Na réplica, Wilson admite que Hitchens possui boa argumentação, mas, em seguida, questiona: “Em face do ateísmo, gostaria que ele [Hitchens] explicasse o porquê do uso da razão. Se Deus não existe, o que é a verdade? Christopher Hitchens manifesta uma enorme indignação moral, mas, em face do ateísmo, gostaria que ele explicasse o porquê de sua prosa vibrante e motivadora. Se Deus não existe, então proteste, protorte, pro&^%...” (p. 17).

Na página 23, Hitchens afirma que é possível encontrar “mais motivos de assombro e reverência num estudo do espaço ou de nosso DNA do que em qualquer livro escrito por um grupo de homens piedosos na era do mito”. De fato, o espaço e as leis que regem o universo causam assombro, tanto que, ao pensar nisso, o maior ateu do século 20, Anthony Flew, acabou se convertendo a Deus. A complexidade do DNA igualmente assombra, e foi no estudo do genoma humano que o ex-ateu Francis Collins repensou suas convicções. Para o leitor atento, o livro da natureza traz a mesma mensagem da Revelação especial, a Bíblia Sagrada: “No princípio, criou Deus” (Gn 1:1).

Na mesma página 23, Hitchens deixa clara sua má compreensão do caráter de Deus: “É claro que não tenho condições de provar a inexistência de uma divindade que supervisiona e vigia cada momento da minha vida e irá me perseguir mesmo depois da morte. (Mas posso me alegrar com a falta de provas para uma ideia tão pavorosa...).” Se Hitchens tivesse estudado a Bíblia com atenção, descobriria que, para quem não quer saber da Vida, não haverá vida após a segunda morte. Deus não “persegue” e muito menos “perseguirá” ninguém, pois essas pessoas não mais existirão.

Wilson contrapõe com perguntas a tradicional alegação de que no Antigo Testamento Deus teria promovido genocídios e massacres, e que os que ensinam essas histórias para crianças foram “condenados pela História”: “Por que deveríamos nos importar com os frágeis julgamentos da História? Deveriam os propagadores desses ‘horrores’ ter se importado? Não há Deus, correto? Como não há Deus, isso significa – você sabe disso – que genocídios acontecem do mesmo jeito que terremotos e eclipses. Tudo é matéria em movimento, e essas coisas acontecem” (p. 27). E Wilson completa: “Diante de seu ateísmo, que explicação você pode dar que nos obrigue a respeitar o indivíduo? Como o seu individualismo flui das premissas do ateísmo? Por que alguém do mundo externo deveria respeitar os detalhes de sua vida e de seu pensamento mais do que respeita o movimento interno de qualquer outra reação química? Nossos pensamentos não passam disso, certo? Ou, se existe uma diferença, poderia você, a partir das premissas de seu ateísmo, fazer essa distinção? [...] A fé cristã é boa para a humanidade porque fornece o padrão fixo que o ateísmo não consegue fornecer e porque proporciona perdão dos pecados, algo que o ateísmo também não pode dar. Precisamos da direção de um padrão porque somos pecadores confusos. Precisamos do perdão porque somos pecadores culpados. O ateísmo não apenas conserva a culpa, mas também mantém a confusão” (p. 29, 35, 36).

A discussão segue a respeito da origem da moral. Hitchens afirma que a moral é “básica e inata” na humanidade. Wilson questiona, dizendo que, mesmo que fosse inata, a moral não seria digna de crédito, já que, para o pensamento ateu, somos fruto da evolução e, portanto, vivemos num universo em mudança. Então, nossa moral inata pode ter sido outra ou poderá ser outra. “Temos primos [evolutivos] distantes cujas mães comiam os filhotes. Isso lhes era inato? Será que eles se desenvolveram porque agir assim não era bom para eles? [...] Se o cristianismo é ruim para o mundo, os ateus não podem afirmar isso com coerência, pois lhes falta um critério fixo para definir o que é ruim” (p. 54).

Com respeito à “coexistência de Deus com o mal”, apontada por Hitchens no quinto round, Wilson responde que prefere Deus mais o problema do mal em vez da ausência de Deus junto com um “Mal? Tudo bem!” (p. 63). Gostei dessa resposta simples porque mostra que, a despeito da relativa dificuldade de seu explicar a existência do mal num universo criado por um Deus todo-poderoso e todo-amoroso, é justamente o conceito de um Deus perfeito e bom que nos leva à indignação contra o mal (por contraste) e alimenta o desejo de buscar algo melhor e de esperar respostas desse Deus.

No sexto e último round, Wilson, como bom pastor, termina fazendo veemente apelo a Hitchens: “[O Senhor] estabeleceu um lar que, além de grande, é acolhedor; há bastante espaço para você. Nada que já tenha feito ou falado será usado contra você. Todas as coisas serão purificadas e perdoadas. Sobre a mesa há comida simples – pão e vinho. A porta está aberta, e vou deixar a luz acesa para você” (p. 77).

Que bom que Wilson concluiu assim o debate! Creio que seriam as mesmas palavras que eu gostaria de dizer com carinho e respeito a todo ateu sincero. Agora só me resta orar por Hitchens e outros que precisam conhecer o Deus verdadeiro e encontrar descanso nEle.

Meses depois de ler o livro O Cristianismo é Bom Para o Mundo?, lendo outro livro – Antropologia Cristã, de Valfredo Tepe (Vozes) –, me deparei com esta citação, na página 244, que me fez lembrar do debate entre Hitchens e Wilson: “Jürgen Habermas, o último dos grandes filósofos da escola de Frankfurt, fez recentemente um discurso que chamou atenção pela abertura positiva para a religião. Afirmou que não conhecia nenhuma alternativa para a herança da cultura ocidental que proveio da ética judaica da justiça e da ética cristã do amor. Dessa substância se alimentaram todas as ideias ‘de liberdade e convivência solidária, de conduta autônoma da vida, da moral de consciência individual, de direitos humanos e democracia’. Tudo o mais seria ‘conversa pós-moderna’.”

sábado, 21 de julho de 2012


 
O risco de um cristianismo pós-moderno: o caso de Leonardo Boff
/ QUESTÃO DE CONFIANÇA / Publicado por Douglas Reis - 05/08/2010 | 23:29h
O ideal de normatização, segurança e conhecimento por meio de técnicas que proporcionem o domínio da natureza marcou a Modernidade. Quando o desenvolvimento tecnológico se revelou dúbio (na ocasião das duas grandes guerras mundiais) e a ciência, ineficaz para solucionar todos os dilemas, a Modernidade entrou em colapso. A partir de então, entramos no período Pós-Moderno. O secularismo (perda do sentido religioso) cedeu lugar a uma espiritualidade difusa. A busca pela Verdade se tornou a tolerância entre muitas verdades (regulamentadas por comunidades interdependentes). O prazer pessoal passou a ser um modelo de vida, substituindo a antiga moral social.[1]
Neste âmbito, o cristianismo enfrenta o desafio de perder sua relevância. Diversas abordagens evangelísticas são propostas para os novos tempos. Ao mesmo tempo, corre-se o risco de sofrer a influência da mentalidade pós-moderna, a qual, inevitavelmente, prevalece sobre certas denominações e indivíduos cristãos.
No presente artigo, abordaremos o risco de nos tornarmos cristãos pós-modernos, exemplificando a questão com o caso do teólogo Leonardo Boff, ex-frei franciscano e um dos proponentes da Teologia da Libertação. Tomamos com base entrevistas dadas por Boff a setores da imprensa e seu mais recente livro, Ética da Vida.[2]
Engajamento contra o cristianismo "acidental"
Leonardo Boff permanece como um dos mais influentes teólogos latino-americanos contemporâneos. Juntamente com Gustavo Gutiérrez e demais pensadores católicos, Boff contribuiu para a criação da Teologia da Libertação, conforme ele próprio depõe: "Foi na ebulição latino-americana, na década de 1970, depois de assumir a cátedra de teologia em Petrópolis, e nesse contexto que junto com outros elaboramos a Teologia da Libertação." Para o ex-frade, a Teologia da Libertação (doravante TL) teria "um olho na realidade conflitiva" (injustiça social) e outro na "reflexão crítica moderna".[3]
No centro dessa teologia, se acha o pobre, que luta e sofre, elemento que constitui, na avaliação de Guilherme Vilela Ribeiro de Carvalho, o seu caráter "pré-teológico". Carvalho chama a atenção para o aspecto revolucionário da TL, uma vez que a única forma de romper a opressão (e "libertar o pobre") se dá com a ruptura do sistema opressor.[4] Um reflexo disso no Brasil está na íntima relação entre a TL e o Movimento dos Sem-Terra (MST). "O MST nasceu da Igreja [Católica] [,] mas hoje tem um curso próprio. É importante que a Igreja tenha lhe dado uma mística e que continue como aliado leal, mas é independente."[5]
Por sua forte influência marxista e seu ativismo político-social, a TL foi condenada pela Igreja Católica e Leonardo Boff, em virtude da imposição do "silêncio obsequioso", renunciou a seu ministério em 1993. Na época, o coordenador do processo contra o ex-franciscano foi Joseph Ratzinger, eleito papa em 2005. Atualmente, Boff continua a lecionar, escrever, dar palestras e participar de comunidades de base. Ele explica seu engajamento divisando dois fazeres teológicos: o primeiro, preocupado em aprofundar as questões da fé e o segundo, que se ocupa com as questões do mundo. Em sua visão, a Teologia deve "pensar os problemas humanos e sociais, sempre, lógico, à luz da pertinência da fé". Caso contrário, se a Igreja Ocidental "não se preocupar em adaptar-se às transformações do mundo, ela ficará cada vez mais acidental."[6]
Cristianismo sem verdade
Boff reconhece que há "uma mudança de paradigma civilizacional". O novo período, que a mídia tem inaugurado com seu papel "quase messiânico", é a "fase planetária". Enquanto a cultura ocidental "homogeneizou toda a humanidade" com violência (o que, diríamos, corresponde à Modernidade), surgiram desigualdades. A solução? "A saída é uma democratização da democracia. [...] Fazer participar o mais possível todo mundo em todas as coisas que interessam a todos. A consequência é mais igualdade e mais satisfação geral."
Para a igreja participar positivamente desse processo, ela tem que aprender a dialogar. "Ou nos abrimos e dialogamos, com os riscos inerentes, ou então nos fechamos e seremos condenados à fossilização, ao dogmatismo, e novamente ao fundamentalismo e às guerras religiosas e ideológicas."[7] Aqui, com maestria, o teólogo define o dilema do Cristianismo, em geral, perante os desafios do Pós-Modernismo - ou dialoga ou se contenta com a irrelevância; porém, se o enunciado do problema ficou claro, o que dizer da resolução apontada?
Antes de responder à pergunta, devemos entender os termos que Boff propõe para o diálogo religioso. Ele defende que o "cristianismo tem que ser uma coisa boa para os seres humanos e não só para os cristãos".[8] Perguntado pela revista Veja sobre a questão do aborto, o teólogo respondeu que a "Igreja não tem o monopólio da ética e da verdade."[9] Em outro momento, Boff declarou ser "preciso que a Igreja abdique do monopólio da verdade, que ela não tem."[10] Como, então, conhecer a verdade religiosa, se não através da mensagem cristã?[11]
Em seu livro Ética da Vida, Boff faz afirmações semelhantes, mas de uma forma mais generalizada, aplicando o que havia dito sobre o catolicismo ao cristianismo como um todo. Ele argumenta que, "renunciando à sua pretensão de deter o monopólio da verdade religiosa", o cristianismo pode dialogar com "outras tradições religiosas", o que servirá para "preservar o que há de mais sagrado nos seres humanos, isto é, seu sonho para cima, sua transcendência, sua abertura para Deus". Esse diálogo é fundamental porque "cada cosmologia, como produz uma imagem do ser humano, produz também uma imagem de Deus",[12] o que, em última análise, compreende a resposta para o homem pós-moderno, aquele que "procura uma cultura espiritual na qual o ser humano em sua subjetividade e gratuidade ocupe um lugar mais central".[13]
E quanto a Deus? DEle "não se pode dizer nada, porque todos os nossos conceitos e palavras vêm depois e derivam do universo. E queremos falar dAquele que é antes do universo. Como?"[14] Em outro artigo, o tema é ampliado: o escritor afirma que o Ser Supremo "não pode ser tão transcendente, pois se assim fosse, como saberíamos dEle? [...] Anunciar um Deus sem o mundo [i.e., sem ter qualquer relacionamento com o mundo criado] faz, fatalmente, nascer um mundo sem Deus"; por outro lado, a imanência absoluta é descartada. "Se Deus existe como as coisas [do mundo físico] existem, então Deus não existe. Ele é o suporte do mundo, não porção dele." Resta então conceber a realidade de Deus como transparência, a qual "afirma que a transcendência se dá dentro da imanência, sem se perder dentro dela [...]". Em síntese, Deus continua "uma realidade concreta, mas sempre para além de qualquer concreção".[15]
Em meio a uma releitura do cristianismo, sob lentes místicas, que se apropria de elementos de outras religiões, Boff cita o trecho de uma conversa que teve com o Dalai Lama, para dizer que a religião verdadeira é a que nos faz melhores, a "que nos faz compassivos, abertos, sensíveis e expostos à vulnerabilidade de todas as coisas. A que nos faz mais descentrados do nosso eu".[16] Com isso, se conclui que alguém não precise ser particularmente cristão a fim de atingir a espiritualidade "onienglobante"[17] defendida por Boff.
Nova embalagem, mesma essência
A proposta de Boff nos leva a questionar o quão cristão seria um cristianismo que abrisse mão de seu exclusivismo, sendo que mesmo Jesus era exclusivista - Ele declarou ser a "Verdade", o único meio de acesso a Deus (Jo 14:6) e que a vida eterna é alcançada somente por quem se relaciona com o Deus verdadeiro e com Ele, Seu representante (Jo 17:3). Além disso, Jesus identificou a Bíblia como a própria Verdade revelada (Jo 17:17). Por toda a Bíblia, profetas, apóstolos e mesmo Jesus lutaram para estabelecer limites bem definidos para a Verdade, em oposição declarada às religiões pagãs, ao sincretismo religioso e a heresias dentro da fé. Seria impossível, dessa forma, conciliar cristianismo e pós-modernismo, porque a fé cristã reivindica possuir a verdade absoluta, revelada por Deus e aplicável a qualquer ser humano em qualquer época.[18]
De que outra maneira responderíamos ao dilema levantado por Boff - ou o diálogo com a cultura ou o isolamento? Sem dúvida, os cristãos não podem se isolar. Entretanto, o diálogo não deve significar perda de identidade e consequente abandono da missão (Mt 28:19-20). Lembremo-nos de que, ao enviar Seus discípulos ao mundo, Jesus sabia de potenciais conflitos religiosos que eles enfrentariam; mas não bastava a pregação a pessoas não-realizadas com suas crenças culturais - todos deveriam ouvir e ser persuadidos, e os que aceitassem se converteriam da autoridade de Satanás para o senhorio do Deus Único (At 26:29). Jesus, afinal, não é Senhor dos cristãos; Ele é o "Senhor de todos" (At 10:36).
Assim, as estratégias podem se adaptar ao momento, nunca a mensagem. "Relacionamentos, amizade, amor e cuidado pelo semelhante são muitíssimo importantes para todo discípulo de Cristo, mas não são tudo o que representa o cristianismo", escreve Aleksandar Santrac. "Se utilizarmos linguagem pós-moderna ou vocabulário não ameaçador, nunca devemos fazer isso a expensas da verdade como revelada na Palavra de Deus." Santrac continua lembrando que evangelismo da amizade não substitui o evangelismo doutrinário, porque Jesus praticou ambos.[19] Semelhante a algumas marcas que, ao renovar determinado produto, inovam apenas na embalagem, o cristianismo do século 21 precisa de nova embalagem para o mesmo conteúdo - a Verdade de Deus, ainda necessária no mundo pós-moderno.
Douglas Reis
1. Para um resumo do desenvolvimento do Pós-Modernismo e suas consequências sobre a espiritualidade contemporânea, ver: (a) Douglas Reis, Paixão Cega: o herói que precisou perder a visão para enxergar (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2010), especialmente as p. 8-20; (b) idem, "O que há de errado com a máquina do mundo (e porque o mundo passou a ser visto como uma máquina)?", primeiro capítulo de Marcados pelo Futuro: vivendo na expectativa do retorno de nosso Senhor (Niteroi, RJ: Editora ADOS, no prelo).
2. Leonardo Boff, Ética da Vida: a nova centralidade (Rio de Janeiro, RJ: Editora Record Ltda, 2009).
3. Apolinário Ternes, "A igreja é autoritária, se recusa a ouvir o seu povo", entrevista com Leonardo Boff, A Notícia, 29 de setembro de 1997, p. G3.
4. Guilherme Vilela Ribeiro de Carvalho, "O dualismo natureza graça e a influência do humanismo secular no pensamento social cristão", em Cláudio Cardoso Leite, Guilherme Vilela Ribeiro de Carvalho, Maurício José Silva Cunha (org.), Cosmovisão Cristã e Transformação: espiritualidade, razão e ordem social (Viçosa, MG: Ultimato, 2006), p. 144, 151. Para uma análise mais completa da TL, ver Amin, R. Rodor, "The impact of Liberation Theologies on the church", Kerigma, ano 4 - Número 2, 2º semestre de 2008, p.42-75, disponível em http://www.kerygma.unasp-ec.edu.br/artigo8.03.asp
5. Márcia Feijó, Metáforas de Leonardo Boff, Diário Catarinense, 27 de agosto de 1997, Variedades, p. 5, box "Opiniões de um cidadão engajado".
6. Apolinário Ternes, Op. cit., p. G2.
7. Ibid., G3, G2.
8. Márcia Feijó, Op. cit, p. 4.
9. Ernesto Bernardes, "Teologia da colisão", entrevista com Leonardo Boff, Veja, 16 de agosto de 1995, p.8.
10. Apolinário Ternes, Op. cit., p. G2.
11. Vale lembrar que, para a Igreja Católica, a verdade religiosa se relaciona com, pelo menos, três elementos: as Escrituras, a Tradição e a autoridade do Papa. Indiferente disso, Boff parece criticar não apenas a pretensão católica à verdade, mas à própria definição cristã de verdade, como ficará claro a seguir.
12. Leonardo Boff, Op. cit, p. 113, 81.
13. Apolinário Ternes, Op. cit., p. G3.
14. Leonardo Boff, Op. cit., p. 95.
15. Leonardo Boff, "Transcendência e transparência", A Notícia, 15 de dezembro de 2007, p. A2.
16. Apolinário Ternes, ibid.
17. Leonardo Boff, Ética da Vida, p. 83.
18. Para uma análise crítica mais ampla, ver Douglas Reis, "A verdade ou a vida", capítulo 5 de Marcados pelo Futuro: vivendo na expectativa do retorno de nosso Senhor (Niteroi, RJ: Editora ADOS, no prelo).
19. Aleksandar S. Santrac, "Evangelismo além da amizade", Ministério, ano 79, nº 2, março/abril de 2008, p.23.